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quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Água morrente- Camilo Pessanha

 

Camilo Pessanha


Água Morrente- Camilo Pessanha

Este poema de Camilo Pessanha, é uma ilustração das várias características do estilo e linguagem. 
Na analise que vem a seguir, os temas abordados serão: 

  1.  A musicalidade e vocalidade dos versos; 
  2.  A simbologia e a sensibilidade estética;
  3. A melancolia e a Efemidade e o desgaste. 

ÁGUA MORRENTE
          
Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville.
        
Verlaine
      

Meus olhos apagados,
Vede a água cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.

Das beiras dos telhados,
Cair, quase morrer...
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.

Meus olhos, afogai-vos
Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
Como a água morrente

 1.A musicalidade e vocalidade dos versos; 

Neste pequeno poema, a musicalidade produzida pelo conjunto das palavras escolhidas pelo autor, é algo que não passa despercebido. Através dos sons suaves e rítmicos o autor consegue transmitir cenários necessários enquanto a leitura do poema. Com isto, é proporcionada não só uma experiencia de leitura única ao leitor, assim como uma submersão contemplativa de tudo o que lê, o que  normalmente gera um agrado.   

     2- A simbologia e a sensibilidade estética;

De facto é possível observar a descrição da «água» como uma metáfora com a vida e o seu ciclo. 
O passar do tempo pode parecer por um lado, um apodrecimento, seja de memórias mas também connosco mesmos, até porque envelhecemos e é algo natural que não poderemos mudar.  Por este motivo, a Efemeridade, ou seja a duração a curto prazo da nossa existência, é um tema central debatido pelo "eu lírico" que espelha o seu estado de espírito. 


3-A melancolia e a Efemidade e o desgaste.  

A melancolia é a emoção central deste poema. Como é possível identificar através da visão pessimista do tempo e da vida, como se tudo fosse em vão e o esforço não compensa-se nada, tal como a finitude.
É ainda possível acrescentar a procura faminta de uma qualidade sublime ou superior, típica do simbolismo, visíveis pelas descrições entre a realidade e o sonho, o consciente e inconsciente. 
Por fim, a semelhança partilhada com o ambiente/ natureza que se encontra em declínio, representa não só a vida metaforicamente, mas também partilha uma perspectiva negativa acerca do tempo e da morte, mais um traço do simbolismo de Pessanha.


É possível concluir que:

  Camilo Pessanha reúne neste poema uma série de características do seu simbolismo, um lirismo denso, repleto de ilustrações sensoriais. E ainda uma visão profunda sobre a fragilidade humana.     


Analogia com o poema «II pleure dans mon cour»  de verlaine

Il pleure dans mon coeur

Comme il pleut sur la ville,

Quelle est cette langueur

Qui pénètre mon coeur?


O bruit doux de la pluie

Par terre et sur les toits!

Pour un coeur qui s'ennuie

O le chant de la pluie!


Il pleure sans raison

Dans ce coeur qui s'écoeure.

Quoi! nulle trahison?

Ce deuil est sans raison.


C'est bien la pire peine

De ne savoir pourquoi,

Sans amour et sans haine,

Mon coeur a tant de peine! 


Tradução:

Chora no meu coração

Qual chove sobre a cidade;

Que languidez é então

Que adentra em meu coração?


Ó doce rumor da chuva

Pela terra e sobre os tetos!

Para um coração em tédio,

Ó a cantiga da chuva!


Chora sem qualquer razão

Neste coração cansado.

O quê! Nenhuma traição?...

Este luto é sem razão.


É mesmo a pena pior

Desconhecer o porquê,

Sem ódio e sem todo o amor,

Meu coração a sofrer.


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